Actualizado: 01/01/03

 

 

HOMENAGEM AOS GAITEIROS POPULARES DE
A CRUNHA

Autor: DUBI MENDEZ BAAMONDE
Fonte: -
Notas: Publicado con permiso expreso do autor.

A A.C. Alexandre Bóveda de A Crunha, em colaboração com a Área de Música Tradicional da Escola Municipal de Música, vem de organizar a Primeira Homenagem Popular aos Gaiteiros Corunhesses, celebrada nos passados dias 12 e 19 de Dezembro às 20:00 horas, no Fórum Metropolitano da cidade herculina. Na sala, cada um dos dias guarda-se um tenso minuto de silêncio pola tragédia do Prestige. O êxito dos actos programados, assim como a importância das figuras dos homenageados, vêm avalar esta iniciativa como uma das mais importantes na história da gaita dos últimos anos, resumo de um século; além de significar o elo da cadeia que faltava entre os velhos e novos gaiteiros da cidade, e marcar uma continuidade lógica entre eles.
O primeiro dia, foi dedicado às figuras de Fernando Álvarez, Cardelhe e José Casal:
Fernando Álvarez Pardo nasce na Crunha em 1932. Formou parte do quarteto infantil do coro Cántigas da Terra, ganhando diferentes concursos. No coro adulto entretanto, andavam a tocar Emílio Corral e Francisco Paradela. Com os anos, entra a formar parte na nova formação do primeiro quarteto de gaitas de A Crunha: "Os Tempranos de Eirís", a fazer duo primeiro com Paradela e mais tarde com Pepito Temprano. Foi gaiteiro profissional. Estuda no Conservatório e aprende a lêr pautas. Tocou para quanta agrupação houve na cidade, desde Brétemas e Raiolas, Follas Novas, os Coros e Danças da Secção Feminina ou o "ballet de la Coruña" que pouco mais tarde se traduziria na importante formação dependente da Deputação chamada "ballet gallego Rey de Viana". Caracterizou-se por uma luta continuada pola dignidade no pago aos gaiteiros.
José Cardelhe Portos representa o passo do gaiteiro rural ao gaiteiro urbano, nasce no ano 1924 numa aldeia de Boimorto, translada-se a Arçua e começa a tocar a mão-cerrada. Gostava na altura tocar com a gaita para acompanhar à voz, nos reizes. Faz o serviço militar em Pontevedra, onde toca numa banda de gaiteiros. Volta a Arçua e finalmente começa a colaborar com o ballet Rey de Viana, com o qual percorre toda a Europa e parte da América. Translada-se a viver à Corunha. Sempre gostou de afinar a gaita com muita voz, soprar com fortaleza. Em Valparaiso, o falecido Rey de Viana botou-lhes uma bronca a Cardelhe e a Gabriel Mato Varela de "os irmãos Garceiras" de Melide por não parar de tocar, tinham demasiada afeição! Cardelhe foi o mestre de reconhecidos gaiteiros da actualidade, como Ricardo Santos Blanco e Raúl Galego.
José Casal é um erudito da gaita. Personagem peculiar onde os haja. Ainda o seu forte carácter, ninguém fala mal dele. José Casal representou, desde sempre, ao gaiteiro polifacético. Pintor, escultor, talhista, artessão de gaitas, compositor, cantor e director de coros e orfeões, etc. Nasceu numa aldeia de Curtis no ano 1942. Tem como mestre gaiteiro a Dom Emílio Corral e entra a formar parte do coro Follas Novas, actividade que compagina com muitas outras agrupações. Já com 17 anos toca com o Ballet Galego com a orquestra sinfónica de Madrid no teatro espanhol, e também com a orquestra sinfónica de A Corunha. Em torno aos 19 anos, aí polo ano 60 ou 61 forma com Miguel Paradela (gaita) Manolito Ambite (tamboril) e Antón Ambite (bombo) o mítico quarteto "Brisas da Crunha", com o que recebem numerossos prémios em Certames de Gaitas e realiza diferentes gravações.
No segundo dia, os homenageados são também três: José "Pepito" Temprano, Francisco "Farruco Paradela" e Emílio Corral.
Pepe Temprano nasce na Crunha em 1940. De família gaiteira, pertence à conhecida saga dos Tempranos de Eirís. Pai gaiteiro-tamborileiro, tio gaiteiro e avó acordeonista. Ademais de gaiteiro, Pepito Temprano é actor, pescador, fotógrafo e coleccionista de toda classe de objectos. Pepe representa a abertura numa época gaiteira fechada, numa época de postguerra onde os personalismos predominaram e fizeram-lhe muito mal ao instrumento. Tem entre outras uma colecção de instrumentos e fotografias antigas espectacular. Tocou nos Tempranos, em Eidos e no ballet Rey de Viana. Continua a tocar. Como ele mesmo diz "fumei muito, bebim muitas taças, comim muito, toquei a gaita todo o que a podia tocar e andei muito de caralhada. Espero que todos os trabalhadores fossem tão felizes como o fum eu na minha vida"
Emílio Corral Vázquez nasce no caminho novo da Crunha (actual Juan Flórez) em 1910. Entra em Cántigas da Terra. Ademais de gaiteiro, foi professor de clarinete e saxofón da primeira banda de música corunhessa, onde foi também director e mestre da Academia de Gaitas, Em 1956 obtém o primeiro prémio de instrumentistas típicos no Festival Internacional de Llangollen (País de Gales), título que revalida vinteseis anos mais tarde, no 1986. Também obtém primeiros prémios como solista no Festival de Gisors (Normandia). Sebastiam Martínez Risco quando era presidente da RAG não duvidou em nomeá-lo Gaiteiro Maior do Reino de Galiza, título que ostenta ainda hoje. Em 1968, recebe junto a Francisco Paradela, as medalhas do prémio Marcial del Adalid
Francisco "Farruco" Paradela nasce na Crunha em 1909. Com 94 anos é junto a Dom Emílio Corral o gaiteiro galego vivo mais importante actualmente, um dos grandes do século XX. Pertenceu durante mais de 30 anos, junto a Emílio Corral, a Cántigas da Terra, o coro galeguista fundado paralelamente às irmandades da Fala, em 1916. Os próprios Soutelos de Montes disseram dele que foi o gaiteiro mais impressionante que tinham conhecido. Conheceu pessoalmente ao boticário pontevedrês Dom Perfecto Feijoo, fundador dos coros galegos e ao mítico Llibradon de Asturies. A sua primeira gaita foi uma dum artessão que vivia em frente da fábrica de gas na Crunha. A sua segunda gaita, foi já construída em Pontevedra polo conhecido Faustino Santalices. Realizou várias gravações deixando constância do seu virtuosismo como solista. Já no 1950 o etnomusicólogo Alan Lomax fixou-se nele para lhe realizar junto a outro dos homenageados, Fernando Álvarez, uma gravação recentemente editada e valorada. José Casal, outro dos homenageados, admira-o: fazia uns vibratos com os seus dedos gordos como chouriços que parecia um violino.
Nas homenagens a estas seis grandes figuras, apresentadas por Xurxo Souto e Flor Maceiras, participaram de maneira altruísta e quase todos em formação de quarteto, os seguintes grupos: Millo Verde (A Crunha), Ricardo Santos&Marcelino (A Crunha), Os Fiuzas de Monte-Alto (A Crunha), Os Xarelos (A Crunha) A.C. Donaire (A Crunha), Aula Folque da Escola Municipal de Música, Os Fonte Suairas (A Crunha), Alén do Mar (As Marinhas) Oscar Miranda e Víctor Iglesias (Arteijo) Brais Maceiras e Susana Seivane (A Crunha) e para rematar a festa...cantou Cántigas da Terra. Enquanto que os grupos actuavam, foram amostradas fotografias que ilustravam as vidas dos homenageados. Namais ouvir o coro de Cántigas, Francisco Paradela e Emílio Corral aguçaram a orelha e começaram a cantar desde os seus lugares. Com o pasmo dos assistentes, Corral não aguanta mais e sobe ao palco a aturujar polo microfone e a gritar: Viva Galiza! Fora chapapote! Paradela, qual Lázaro, levanta-se da sua cadeira de rodas e começa a subir também ao palco para cantar o Hino Galego com Cántigas da Terra, mentres à metade do público e aos coristas caim-lhe as lágrimas de emoção a berrar-lhe GAITEIRO!

 

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